segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ano novo, blog novo!


Queridos amigos que acompanham o blog C4,

Para começar o ano de 2011, decidi promover uma reformulação no blog. Antes de qualquer coisa, optei por modificar o próprio nome do blog, que agora se chamará: cleciolemos.blogspot.com.

Além disso, realizei algumas poucas modificações no visual do blog.

Enfim, espero que possamos continuar trocando informações sobre ciências Criminais neste ano que se inicia. Estou sempre à disposição dos amigos que por aqui passam.

Vamos nos unir por um mundo com menos repressão e punitividade. 

Peço, desde já, que também se tornem seguidores do novo blog. O blog C4 não mais será alimentado com postagens, pois a idéia é substituí-lo pelo novo endereço. Todos os links aqui presentes já foram repassados ao blog cleciolemos.

Daqui pra frente, portanto, cliquem em:





 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Férias


Queridos(as) amigos(as) que acompanham o blog,

É chegado o tradicional recesso de fim de ano. Portanto, decidi também tirar férias do blog para descançar um bocado.

Assim, comprometo-me a retornar dia 10 de janeiro de 2011, já com algumas alterações.

Pelo momento, deixo aqui registrada minha enorme gratidão a todos que apoiam o blog, desejando-lhes ótimas festas. Que o ano de 2011 nos reserve um mundo mais fraterno, mais humano e com menos punitividade.

Grande abraço a todos!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Indicação de documentário



Por indicação do amigo Guilherme Peruchi, tive contato com um video interessante e que gostaria de indicar.

Trata-se de um documentário sobre a história das punições, da série Ecce homo, disponível no site do TV escola.

No video há interessantes comentários dos cientistas Jean Pradel e David Garland. Há ainda várias imagens reais de cadeias em todo mundo e de execuções de pena de morte. Para visualizar o documentário é preciso fazer um cadastro muito rápido, vale a pena conferir.

Para acessar, clique aqui.

Lançamento de livro



Venho informar aos amigos que acaba de ser lançada a obra "Os espelhos do sistema jurídico-penal - Giordano Bruno, o herege", da professora da UFMG Daniela de Freitas Marques.

Trata-se de obra já muito aguardada no meio científico.

Para acessar o link do livro na editora, clique aqui.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Treinamento no Pará



Imagens oferecidas pelo jornal da Record e Globo sobre torturas no treinamento em Belém/PA do Pelotão de Operações Especiais da Aeronáutica.

É assim que se formam as nossas "tropas de elite". Triste o país que precisa de soldados humilhados.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Entrevista: Vera Malaguti

Segue reportagem do Correio da Cidadania:

"Após mais uma onda de violência na cidade do Rio de Janeiro, o Brasil se deparou com um espetáculo deprimente de suas mazelas sociais e humanas. Após traficantes desceram ao asfalto, promovendo assaltos e queima de veículos, por razões ainda pouco esclarecidas, novamente a cidade se viu em pânico. Situação inflada pela cobertura espetacularizada da grande mídia, que por sua vez endossa sem parar as políticas fracassadas de mera repressão à ponta pobre do tráfico, isto é, nos morros.
 
Em entrevista ao Correio da Cidadania, a socióloga Vera Malaguti, secretária geral do Instituto Carioca de Criminologia (ICC), criticou duramente os governos estadual e federal, especialmente em relação à entrada das forças armadas na questão, de legalidade questionável. "Tudo é ilegal aqui. Estamos vivendo em regime de exceção", afirmou, referindo-se também às violências cometidas contra moradores inocentes das áreas invadidas pelas forças oficiais.
 
Para ela, tal processo é parte de uma política de ocupação de áreas pobres, idealizada pelos EUA há décadas, que visa também garantir um controle militarizado da vida das pessoas, além de abrir caminho para "os negócios transnacionais e olímpicos".
 
Malaguti questiona firmemente a política de segurança do governo Cabral, por considerar as UPPs - Unidades de Polícia Pacificadora - e toda a recente operação mais uma ação de marketing, baseada nas mesmas políticas de repressão sem investimento social, amplamente fracassadas.. "Estão ocupando a cidade. Para que fluam os grandes negócios transnacionais e esportivos. Para que as pessoas possam fruir sem serem incomodadas pela nossa pobreza".
 
A entrevista completa, na qual Vera não poupa nem o ex-secretário Luiz Eduardo Soares ("ele é um pouco responsável pela glorificação do BOPE como solução"), cujas análises foram elogiadas por setores progressistas, pode ser conferida a seguir.
 
Correio da Cidadania: O apaziguamento do clima de guerra que se instalou no Rio, a partir da colaboração do Exército e da Força Nacional de Segurança na expulsão dos traficantes do Morro do Alemão, levou a um clima de euforia entre a população, seguido pela maior parte da mídia. Como encara, nesse sentido, as ações imediatas que foram tomadas pelo governo nos últimos dias para controlar a crise?
 
Vera Malaguti: Estranhei muito. Eu penso que a euforia foi fruto de uma campanha midiática. Gosto de falar com base em evidências, mas desde o início considerei muito estranhos os acontecimentos. Comparando com aquela vez em São Paulo, em 2006, quando a cidade parou, na hora em que o governo decidiu mobilizar as forças armadas, ainda se teve uma meia dúzia de carros queimados, mas nenhuma vítima.
 
Tudo foi engatilhado de um jeito que pareceu muito estranho. Se formos ver a análise da mídia, como a da Folha, que dessa vez foi mais crítica, vê-se que existia uma combinação com a Rede Globo, tanto que na véspera eles anunciavam o ‘Tropa de Elite 3’, e no dia seguinte transmitiram aquilo o dia inteiro.
 
Diante do que acontecia, creio que a reação foi desproporcional em relação ao ocorrido, e aí não entendemos de fato como foram as coisas. Seriam 600 homens, ou não? As apreensões mostradas também não fazem muito sentido, porque o envolvimento das forças armadas em tais situações é muito questionado no mundo inteiro.
 
Os EUA, por exemplo, proíbem suas forças armadas de trabalharem como polícia. No entanto, estimulam muito que as forças armadas latinas entrem nesta guerra perdida, como no caso do México, grande exemplo disso.
 
Desde 94, quando da operação Rio 1, as conversas com o Comando Militar do Leste sempre receberam a recusa das forças armadas brasileiras, por ser algo perigoso. Da mesma forma que a polícia se desmantela nessa guerra sem fim, as forças armadas, que na verdade são responsáveis pela nossa soberania, poderiam passar pelo mesmo. Atirá-las nessa guerra perdida é uma aventura. As forças armadas norte-americanas não entrariam nessa jamais.
 
Portanto, creio que foi um ato midiático, como tudo que é feito pelo governo do estado do Rio de Janeiro. Só que desta vez o governo federal embarcou na aventura, a meu ver de forma muito irresponsável, correndo o risco de colocar as forças armadas brasileiras num impasse geopolítico.
 
Correio da Cidadania: Mas no momento específico, e diante da dificuldade da polícia carioca no enfrentamento frontal ao tráfico dos morros, a presença do Exército, assim como da Marinha e Aeronáutica, não seria necessária como medida emergencial?
 
Vera Malaguti: Em 2006, em São Paulo, aconteceu algo muito mais grave, muito mais profundo, e as forças armadas nem foram cogitadas. Quando entraram, tinha-se meia dúzia de carros queimados e nenhuma vítima. Na França, é normal queimarem 300 carros num protesto, e o exército francês nunca entrou pra interferir. E nunca considerou esses atos terrorismo, e sim manifestação.
 
Acho que tudo faz parte de uma escalada do modelo norte-americano de ocupação. Inclusive saiu uma entrevista do ministro (da Justiça, e futuro governador do Rio Grande do Sul) Tarso Genro no Página 12, da Argentina, na qual os jornalistas se assustaram com as declarações dele, pois tinham um jargão bélico constante.
 
Ao mesmo tempo, é um modelo fracassado, pois os EUA estão perdendo a guerra no Iraque nessa acepção.
 
Correio da Cidadania: Fracasso da guerra às drogas também.
 
Vera Malaguti: Exatamente. A guerra às drogas já virou um mico mundial. Portanto, essa escalada do Rio de Janeiro me parece fazer parte do processo que mencionei. Já tivemos a chacina do Pan, também no Alemão. É algo muito midiático, e também perigoso, por ser uma escalada bélica.
 
E agora, miraculosamente, acabou tudo, está tudo calmo. O que acontece no Rio de Janeiro de verdade? Acho que ainda faltam elementos para afirmarmos algo com responsabilidade, mas me pareceu tudo muito rápido e alinhado à Globo. Parecia tudo parte dos efeitos Tropa de Elite. Tanto que na véspera do ‘Dia D’, a manchete do O Globo era ‘Tropa de Elite 3’. E depois houve aquela cobertura toda, enquanto do lado de lá se viam escombros, tanto que houve várias comparações com Canudos.
 
E o day after é aquilo que a gente conhece sempre, a história de invasões da polícia às comunidades faveladas.
 
Correio da Cidadania: Na invasão do Alemão, em 2007, durante o Pan, foi a mesma coisa, e nem o tráfico de drogas, nem o controle armado do território por criminosos foram, no entanto, até hoje eliminados. Pelo contrário, estamos novamente diante do mesmo morro, agora com uma ocupação ainda mais extensa, a partir da participação direta da Força Nacional de Segurança, da Polícia Federal, do Exército, Marinha e Aeronáutica. Trata-se da persistência inócua e equivocada de uma política de ocupação, não?
 
Vera Malaguti: Sim. Os moradores sendo humilhados, torturados, tendo suas casas roubadas, reviradas, aquilo que a gente conhece. Agora com o agravante da glorificação de uma polícia militarizada, um efeito perverso que enxerguei nos filmes Tropa de Elite, e que me parece formar esse todo, de glorificação da força militar.
 
O saudoso coronel Carlos Magno Nazaré Teixeira, assassinado em 99, policial militar com formação humana, profunda, crítica, escreveu um artigo intitulado ‘A remilitarização da segurança pública’. É, de fato, um processo. O Brasil aderiu agora; e, surpreendentemente, a partir do governo federal.
 
Correio da Cidadania: Esse cenário não tem sido construído, com a ajuda da mídia, como forma de criar uma legitimação para a Copa e as Olimpíadas? A força militarizada não serve pra sufocar os gritos contrários?
 
Vera Malaguti: Com certeza. Além disso, abrir caminho também para os grandes negócios transnacionais. Crime organizado é isso aí. Esses negócios olímpicos e transnacionais fazem parte da estratégia de ocupação das áreas pobres. É mais um capítulo dos ‘muros ecológicos’, ‘paredes acústicas’, que vão murando e isolando as áreas pobres. Depois, as pessoas falam que é uma alternativa. Não, não é uma alternativa ao modelo, e sim seu aprofundamento, chegando agora na ocupação militarizada das favelas.
 
Eu chamo de gestão policial da vida. Pra fazer uma festa tem que pedir autorização. Por isso, creio estarmos diante de um projeto de ocupação militarizada nas áreas de pobreza do Rio de Janeiro, com uma cobertura vergonhosa da grande mídia.
 
O Loïc Wacquan escreveu artigos como ‘Punir os Pobres’, ‘A Penalização da Miséria’, mas um em especial chama a atenção: ‘Da Penalização à Militarização’. Durante esses dias, ele me mandou uma mensagem perguntando isso: "Vera, estou vendo tudo pela TV. É aquilo mesmo, da penalização à militarização?". Acho que é exatamente isso. Demonizam-se algumas atividades em certas regiões, depois se criminaliza e se entra com tudo no lugar em questão. É o que também chamamos de indústria do controle do crime, é uma modalidade de economia. As próprias forças armadas, em parte, resistem a isso.
 
Mas como parece que nosso ministro da Defesa gosta de trocar inconfidências com ministros americanos, como vazou o Wikileaks, vimos que os EUA queriam saber se o Rio de Janeiro poderia sofrer terrorismo e que lhes interessava vender-nos tecnologia para tal combate.

Correio da Cidadania: Não só vender equipamentos, como até editar uma lei antiterrorismo, como também foi vazado.
 
Vera Malaguti: Tudo o que acontece são tecnologias de guerra sendo vendidas. Os jornais mostravam os blindados, a polícia dizia que gostava... Enfim, estamos comprando as sucatas das derrotas dos EUA no Iraque e no Afeganistão.
 
Correio da Cidadania: De Israel também, haja vista que o Brasil, e especialmente o Rio, é um grande cliente dos israelenses no mercado de armas, não?
 
Vera Malaguti: Certamente. Israel é o grande parceiro das vendas de serviços e tecnologia nessa área. Mas antes é preciso construir o discurso do inimigo, o que o grande jurista argentino Zaffaroni chama de ‘direito penal do inimigo’. As garantias vão sendo suspensas, prendem-se os familiares, advogados. Ou seja, estamos vivendo no Rio um Estado de Exceção. Não vi nenhum morador dessas áreas aplaudindo. Como também nunca vi morador elogiar UPP, apenas vejo a mídia dizer que eles aprovam. Na cobertura do day after, só vi morador se sentindo humilhado, violentado, esculachado, roubado... A história de sempre, desde Canudos.
 
Não sei se o nome adequado é fascismo ou farsismo.
 
Correio da Cidadania: Já vêm soando rumores de que o Exército poderia permanecer nas áreas conflagradas por tempo maior que os cerca de 8 meses inicialmente cogitados, fincando suas bandeiras nessas áreas até a Copa do Mundo. Ao lado do comentado risco de contaminação do Exército pelo tráfico, uma permanência tão estendida é a prova cabal da política de militarização imposta pelos EUA, não?
 
Vera Malaguti: Eu acho um perigo para a soberania nacional colocar as forças armadas nessa guerra perdida. E digo mais: não me parece que a situação do Haiti seja bonita, onde nossas forças armadas comandam uma ocupação. Como está lá? Nossas forças armadas vão se transformar em polícia de contenção de pobreza absoluta? Eu acho uma tristeza, além de um precedente perigoso.
 
E tem ainda o circo das ONGs: a Viva Rio, que aqui no Rio é chamada de ‘Viva Rico’, esteve lá no Haiti. Vai participar aqui também?
 
Tirar as forças armadas de seu papel, de garantir a soberania nacional, é o sonho dourado dos EUA. As forças armadas deles não entram jamais numa empreitada dessas, mas eles recomendam a todos os outros que o façam.
 
O governo Lula aderir a isso é uma vergonha.
 
Correio da Cidadania: Sem contar a sensível questão acerca da legalidade de tal atuação, muito questionável.
 
Vera Malaguti: Tudo é ilegal aqui. Estamos vivendo em regime de exceção, tudo é ilegal. Desde a inviolabilidade do lar até a gravação das prisões de advogados, fora outras coisas que já citamos.
 
E a OAB do Rio já apoiou a operação desde o começo. Em vez de ficar na trincheira de luta, observando se as garantias constitucionais estão sendo levadas em conta, já entrou apoiando, como também o fez na operação de 2007 no Alemão.
 
E a atuação da grande mídia...
 
Correio da Cidadania: Parece que estão transmitindo mais uma atração dominical.
 
Vera Malaguti: Exatamente. E com a glorificação da truculência, da militarização. É de fato a glorificação da figura do Capitão Nascimento.
 
Correio da Cidadania: Fora o massacre ideológico, com as mesmas figuras defendendo por horas e horas todas as ações, com as mesmas idéias de sempre, que, como você já disse, só acumularam fracassos.
 
Vera Malaguti: É uma cobertura que serve muito mais para as pessoas não entenderem o que acontece. E, no final, os resultados são pífios. Cadê os 600 homens, cadê as armas? Aparece uma bazuca aqui, outra ali...
 
Sinceramente, acho que, se olharmos bem, vamos ver que as forças armadas, polícias civil, militar, fizeram um fiasco, prendendo um monte de pé rapado. Não há novidades no front.
 
Correio da Cidadania: Qual a sua avaliação quanto à política das UPPs no Rio de Janeiro, tanto no que se refere ao conceito e objetivos que lhes dão sustentação, como à forma pela qual vêm sendo conduzidas?
 
Vera Malaguti: É parte de todo esse jogo. É uma obra de arte midiática, uma peça de marketing. O governador do Rio é expert nisso. O Rio tem o maior investimento em segurança pública e está em penúltimo no ranking da educação de todo o país.
 
Se pegarmos o que o governo do estado investe em marketing... As UPPs são mais uma peça publicitária, parte dessa militarização da segurança pública, por se tratar de uma ocupação militar, na qual os moradores são obrigados a se submeter a tudo, até a pedir permissão pra fazer uma festa. Além de significar a glorificação da gestão policial da vida - dos pobres, é claro.
 
E a prefeitura, cujos integrantes participam do mesmo projeto político, entra com o Choque de Ordem, que busca tirar todas as estratégias de sobrevivência dos pobres na rua. Mas, ao mesmo tempo, as ruas do Rio são invadidas por empresas transnacionais.
 
Portanto, o camelozinho pobre não pode botar suas bugigangas na Vieira Souto. Mas no fim de semana retrasado um laboratório francês, enorme, estava lá com container, fazendo exames de câncer de pele e distribuindo filtro solar.
 
Correio da Cidadania: Fazendo exames e, claro, uma belíssima ação de marketing.
 
Vera Malaguti: É. A empresa pode. Mas as estratégias de sobrevivência dos pobres, criadas pelo povo, não. Essas são demonizadas e criminalizadas. Agora, a ocupação militar. Uma vergonha. Mesmo com todas as críticas que tenho, nunca esperava um papelão desses do governo federal, que entrou na jogada.
 
Correio da Cidadania: O sociólogo Luiz Eduardo Soares adverte que sem ir à raiz da relação promíscua entre policiais e traficantes as UPPs não têm chance alguma de sucesso, visto que seriam contaminadas pelo mesmo esquema de corrupção.
 
Vera Malaguti: É, pode ser, mas o Luiz Eduardo Soares é um pouco responsável, é o criador do Capitão Nascimento, o novo herói nacional.
 
Tenho uma posição muito crítica em relação à produção do Luiz Eduardo Soares. Ele é um pouco responsável pela glorificação do BOPE como solução. Mas ele alterna também. Está esperando a polícia ficar limpa no capitalismo... Vai ter que esperar um bocado.
 
Ninguém está limpo no capitalismo, mas quem está menos limpo é a sociologia fluminense, que está toda inserida no mercado, nossa! Na cobertura, apareciam todos apoiando a operação. Inclusive ele, na última entrevista, disse: "sou a favor da repressão, mas...".
 
Portanto, tenho uma visão muito crítica a ele especificamente, pois acho que os Tropas de Elite 1 e 2 tiveram esse efeito perverso. Tanto que o ápice do 2 é a tortura do político corrupto. E a tortura é a estrela dos dois filmes. Por isso, acho-o muito responsável pelo que culminou com o Globo chamando toda a história de ‘Tropa de Elite 3’.
 
Correio da Cidadania: Mas o que pensa dessa relação promíscua entre policiais e traficantes, assim com de seu impacto sobre as UPPs?
 
Vera Malaguti: Acho que o proibicionismo, a política criminal de drogas dos EUA, à qual aderimos desde a ditadura, produz esse resultado, razão pela qual as forças armadas não podem entrar, pois vão se desmantelar.
 
Não é um problema moral, e sim de escolha política que se faz. Quanto mais repressão, maior custo. E políticas que não legalizam o segundo emprego do policial, jogando-o na ilegalidade, só contribuem ainda mais.
 
Não é uma questão moral das polícias, mas uma questão econômica, dentro de um capitalismo selvagem.
 
Correio da Cidadania: O mesmo sociólogo há algum tempo tem ressaltado que o tráfico armado, tal qual se apresenta hoje, é um modelo em processo de extinção - não devido à existência das UPPs, mas em função de sua estrutura pesada e custosa, tendente, portanto, a caminhar para formas mais sofisticadas de crime organizado. As milícias tão preponderantes hoje no Rio, cujos membros são em grande parte policiais, seriam uma dessas modalidades mais ‘atualizadas’ do crime organizado. Diante do que se viu no Rio, você comunga dessa avaliação, de que o tráfico armado nos moldes atuais esteja realmente em extinção no Rio?
 
Vera Malaguti: Acho que ainda não tenho, nem ele, elementos para afirmar isso. Pierre Bourdier criticava muito o que chamava de fast thinker. Aqueles caras que a grande mídia sempre procura. Pode ver que a grande mídia procura sempre os mesmos. É uma penca, não vou citar nomes. Pra você dizer algo assim, tem que se fazer uma pesquisa, se aprofundar, mas para a Globo News eles sempre sabem tudo já na hora dos acontecimentos.
 
Eu sou uma slow-thinker. Não tenho elementos para confirmar essa teoria ainda.
 
Correio da Cidadania: Mas, de toda forma, as milícias têm sido um braço fortíssimo do crime organizado, até com mais tentáculos, e sem combatê-las não vai adiantar absolutamente nada, no final das contas, eliminar somente os comandos tradicionais.
 
Vera Malaguti: Claro. Estranhamente, o governo estadual resolveu combater somente uma das empresas do comércio varejista de drogas. Qualquer pessoa com o mínimo de inteligência, conhecendo o mercado, sabe que em caso de se partir pra cima de alguém em seu espaço, retirando-o de lá, tal espaço será ocupado por outra empresa. Mais uma vez, todo esse aparato foi pra cima de uma das empresas. Estranhamente, as outras (milícias) têm uma relação maior com a polícia. Natural.
 
Houve um momento em que todo mundo dizia que as milícias eram autodefesa ao narcotráfico. Deu no que deu. As milícias cresceram, primeiro sendo glorificadas, e agora fica tudo meio embolado.
 
Correio da Cidadania: O que pensa sobre o modelo de polícia hoje existente? Quais seriam, a seu ver, as políticas públicas e medidas que, a médio e longo prazos, realmente incidiram sobre este modelo de modo a enfrentar o tráfico e a violência em uma cidade como o Rio de Janeiro?
 
Vera Malaguti: Primeiramente, acabar com o proibicionismo, ou seja, a política proibicionista norte-americana. E, claro, as velhas políticas públicas: escola pública de tempo integral, saúde, enfim, todo o universo da agenda que perdemos, porque agora nossa agenda é só segurança pública, ela vem na frente de tudo.
 
Em terceiro lugar, o protagonismo da juventude popular, pois uma das coisas que a criminalização das estratégias de sobrevivência faz é também criminalizar a potência juvenil, popular, transformando-a em bandidagem.
 
Precisamos recuperar os movimentos políticos que dão potência e protagonismo à juventude popular. E não demonizá-los, criminalizá-los e agora aniquilá-los.
 
Correio da Cidadania: E o que pensa sobre o atual modelo de polícia?
 
Vera Malaguti: É o mesmo de sempre. É a história da polícia do Brasil. Começou para erradicar quilombos e assim continua. Erradicando e ‘pacificando’ quilombos. Não mudou nada.
 
Correio da Cidadania: Para evitar questionamentos quanto à política salarial e ao orçamento público, o governo faz a citada vista grossa para várias ‘ilegalidades’, como os bicos feitos por policiais de modo a incrementar seus ganhos - bicos que, em função do mencionado ‘proibicionismo’, estão na raiz do tráfico e da formação de milícias. Diante desse cenário todo, seria possível lidar com a situação atual, de modo a que a raiz da degringolada fosse de fato enfrentada, sem um novo enfoque para as políticas públicas, e sem, ademais, um novo olhar para a cidade?
 
Vera Malaguti: O Luiz Eduardo, por exemplo, gosta de vender modelos de segurança. Acho que o modelo de segurança é algo que precisa ser construído coletivamente. E utopicamente também.
 
Toda cidade que precisa de muita organização policial tem algo de muito errado. As cidades seguras são aquelas que precisam de pouca polícia.
 
A desigualdade social, a brutalização da pobreza, essas medidas compensatórias, que aprofundam os nexos da desigualdade... Precisamos construir um modelo de felicidade para a cidade, no qual a segurança seria a última prioridade. Porém, não acredito nisso.
 
Estamos voltando à República Velha, época em que, quando se pensava na questão social, pegava-se um revólver. Estou me sentindo na República velha, quando as questões sociais eram resolvidas pela polícia.
 
Precisamos de menos polícia, menos prisão, mais beleza, mais cultura, mais alegria, mais potência juvenil e popular, protagonizando as coisas.
 
Correio da Cidadania: Finalmente, como vislumbra que o futuro governador do Rio, assim como a futura presidente do Brasil, vão lidar com o tema da Segurança Pública?
 
Vera Malaguti: Olha, estou morrendo de medo dos dois. A perspectiva é sombria. E como o ministro da Defesa será mantido... Parece que estaremos bem com as embaixadas americana e israelense.
 
Correio da Cidadania: Podemos, dessa forma, imaginar uma intensificação desse modelo militarista de mediação social?
 
Vera Malaguti: Estão ocupando a minha cidade. A linda, insubmissa e rebelde cidade do Rio de Janeiro. Para que fluam os grandes negócios transnacionais e esportivos. Para que as pessoas possam fruir sem serem incomodadas pela nossa pobreza. Essa é a minha triste impressão dos acontecimentos.
 
Como eu disse, não sei se é fascismo ou farsismo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Desigualdade regional e massa salarial

A notícia é do site do IPEA:

"O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou nesta terça-feira, 14, às 10h, o Comunicado do Ipea n° 71 - Desigualdade regional recente: uma nota a partir de dados estaduais; o Comunicado do Ipea 72 - Análise regionalizada da massa salarial com uso da PME-IBGE; e o Comunicado do Ipea 73 - Mobilidade urbana e posse de veículos: análise da PNAD 2009. O lançamento foi realizado em entrevista coletiva na sede do instituto, em Brasília (Setor Bancário Sul, Quadra 1, Bloco J, Edifício BNDES/Ipea, auditório do subsolo).

O Comunicado do Ipea n° 71 analisa as mudanças na economia brasileira em termos regionais entre 1995 e 2008, por meio do exame dos PIBs das unidades da federação. O estudo mostra a evolução do PIB e do PIB per capita e da desigualdade em níveis estaduais e regionais, além de decompor a medida das disparidades entre as regiões e dentro delas. Também  são abordados a distorção dos dados causada pelo Distrito Federal, e a comparação da concentração econômica no Brasil e em países selecionados.

Já o Comunicado do Ipea n° 72 desagrega de maneira inédita dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), publicada mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados referentes à massa de rendimentos são estratificados por cor, gênero e ocupação – na pesquisa do IBGE, as  informações são desagregadas apenas por região metropolitana. O trabalho permite uma interpretação mais profunda das características do mercado de trabalho nacional."

Para ler na íntegra os comunicados no site do IPEA, clique aqui.

Seminário IBCCRIM

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Wikileaks e UPPs

O famoso site Wikileaks, sobre o qual comentei semana passada, divulgou documentos oficiais originários do consulado norte-americano no Rio de Janeiro. Dentre eles, há uma série de cartas confidenciais que relatam sobre a instalação das UPPs nas favelas cariocas e a violência local.

São alguns trechos:

"Security experts see a possible link between the pacification program and an increase in crime in Rio de Janeiro's more affluent neighborhoods, such as Ipanema, Leblon, and Copacabana, collectively known as 'Zona Sul'." (Esperialistas de segurança veem uma possível ligação entre o programa de pacificação e o aumento de crimes nos bairros mais ricos do Rio de Janeiro, como Ipanema, Leblon e Copacabana, coletivamente conhecidos como "Zona sul".)

"In addition to the security factors involved with the pacification program, there are also significant economic interests at stake. Some economists have forecast an increase of 90 million Brazilian Reals (45 million USD) in new property and service taxes that would go towards the Rio municipal government, should all favelas come under the authority of Rio state."  (Além dos fatores de segurança que envolvem o programa de pacificação, há também interesses econômicos significantes no contexto. Alguns economistas estimam um crescimento de 90 milhões de reais em novas propriedades e impostos que iriam para a prefeitura do Rio, deveriam todas as favelas estar submetidas à autoridade do Estado do Rio.)

"The Favela Pacification Program shares some characteristics with U.S. counter-insurgency doctrine and strategy in Afghanistan and Iraq." (O programa de pacificação de favelas compartilha algumas características com a doutrina da contra-insurgência dos EUA e a estratégia usada no Afeganistão e Iraque)


Para visualizar diretamente os dados, clique aqui.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Cadeira vazia no nobel da paz


O campeão do prêmio nobel da paz de 2010, Liu Xiabo, foi representado por uma cadeira vazia na cerimonia realizada hoje na Noruega.

Liu se encontra preso pelo Governo chinês e não pôde receber pessoalmente seu prêmio, a conquista é resultante de sua luta pela liberdade política e pelos direitos humanos em seu país.

Para ler o discurso oficial do prêmio, clique aqui.

Imagine



Aproveitando a indicação de meu primo Carlos Morandi, decidi postar a letra da música memorável de John Lennon. Nesta quarta-feira, marcou-se 30 anos do assassinato do beatle.

Paz no mundo.

Belíssima mensagem:

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje...

Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...

Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.

Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não o único.
Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
E o mundo viverá como um único.

Imagine
(John Lennon)

Vias de fato

Consta no informativo nº 456 do STJ:

"AGRESSÃO. VIAS DE FATO. RELAÇÕES DOMÉSTICAS.

Na hipótese, o ora paciente foi condenado, em primeiro grau de jurisdição, a 15 dias de prisão simples, por prática descrita como contravenção penal (art. 21 do DL n. 3.688/1941), sendo substituída a pena corporal por restritiva de direitos de prestação de serviços à comunidade. A apelação interposta pelo MP foi provida, reformando a sentença para fixar a impossibilidade de substituição em face da violência, concedendo, de outra parte, o sursis, ficando a cargo da execução os critérios da suspensão condicional da pena. Sobreveio, então, o habeas corpus, no qual se alegou que vias de fato, ou seja, a contravenção cometida pelo paciente, diferentemente da lesão corporal, não provoca ofensa à integridade física ou à saúde da vítima. Salientou-se que é perfeitamente possível substituir a pena privativa de liberdade por restritiva de direito, pois a violência e a grave ameaça que obstam a concessão da benesse devem resultar de crime grave que traga perigo à vida da vítima, e não de crime de menor potencial ofensivo, como no caso. Além disso, aduziu-se que a substituição é a medida mais adequada à realidade do caso concreto, pois é certo que, sendo direito subjetivo do paciente, ela não pode ser negada, notadamente porque não há, quanto aos delitos praticados com violência doméstica, tratamento diferenciado. A Turma concedeu a ordem pelos fundamentos, entre outros, de que é razoável supor, assim como defendido na impetração, que a violência impeditiva da substituição da pena privativa de liberdade por restritivas de direitos seja aquela de maior gravidade e não, como na espécie, mera contravenção de vias de fato, chamada por alguns até mesmo de "crime anão", dada a sua baixa ou quase inexistente repercussão no meio social. Consignou-se, ademais, que, no caso, a agressão sequer deixou lesão aparente, daí porque soa desarrazoado negar ao paciente o direito à substituição da pena privativa de liberdade; pois, em última ratio, estar-se-ia negando a incidência do art. 44 do CP, visto que a violência, pela sua ínfima repercussão na própria vítima ou no meio social, não impede, antes recomenda, sejam aplicadas penas alternativas, inclusive em sintonia com a própria Lei Maria da Penha, notadamente a sua mens, expressa no seu art. 45, que promoveu alteração no parágrafo único do art. 152 da Lei n. 7.210/1984. Precedente citado: HC 87.644-RS, DJe 30/6/2008. HC 180.353-MS, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 16/11/2010."

Comentário:

Pra começar, sou a favor da total abolição das chamadas contravenções. Esse é o passo principal.

Quanto à hipótese acima, pensem bem, a condenação é por 15 dias de prisão, e mesmo assim o acórdão não quis realizar a substituição da pena. Algo evidentemente irracional, contraditório.

Por fim, acho que seria caso de aplicar o princípio da insignificância, pois foi relatado que a lesão era ínfima, sequer deixando marca corporal.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Genocídio e democracia

A postagem de hoje é uma entrevista realizada pelo Caderno 3 com o Marildo Menegat, filósofo e professor da UFRJ.


Caderno 3 — Gostaria de começar pelo tema de sua palestra. Quais os desafios da esquerda no século XXI? Há espaços para uma práxis revolucionária e em que termos?

Marildo Menegat — A característica do nosso tempo é uma homogeneização do mundo. Tudo é mercadoria e tudo está a serviço da acumulação de capital. O capitalismo produz problemas que não podem ser resolvidos nos seus marcos: a devastação da natureza, o crescimento mundial da pobreza, o desemprego, a infinita e monótona infelicidade existencial destes tempos. Não há saídas, exceto para fora do sistema. Essa percepção começa a se consolidar em contigentes cada vez maiores, de Bagdá a Londres, de Berlim a Nova Orleans, de Porto Príncipe ao Rio de Janeiro. A verdade é que desta vez teremos que encarar o capital sem desvios nem ilusões. Ou tentamos a revolução mais uma vez ou não haverá humanidade no futuro.

- O Brasil vive um momento singular: um partido conectado com os ideais da esquerda passa a ser acusado de corrupção e de práticas típicas da velha direita. A crise do governo Lula não pode minguar as chances da esquerda no Brasil? Não pode arrefecer a confiança nos partidos e ideologias de esquerda?

Marildo Menegat — O que faliu não foi a esquerda mas uma determinada concepção desta. O que define a esquerda é a lucidez de ver no capitalismo um tipo de sociedade que deve ser superada por estar aquém das imensas capacidades de criação humana. O PT é um produto de uma época em que se imaginou que era possível acumular forças para transformar esta sociedade por meio de seus próprios mecanismos políticos. Esta concepção exigia também um programa “sério” de governo, que apontasse para uma crescente tensão das forças sociais, que seria resolvida num incremento popular do consumo e numa distribuição de riquezas “dentro da ordem”. Esta estratégia subestimou a capacidade de cooptação do sistema e, quando se deu conta de que estava capturada, tornou este fato numa virtude. Foi neste momento que o petismo foi pego com “a mão no cofre”. Para continuar este projeto, estas práticas escusas eram fundamentais. Não existe governo de esquerda nestas condições políticas. O PT se converteu à ordem de corpo e alma.

- No caso do PT, a herança patrimonial brasileira foi mais forte do que a coerência ideológica do partido? No fim, o PT sucumbiu à trágica sina política brasileira?

Marildo Menegat — O mais triste dessa história é que o PT morreu sem ao menos tentar realizar confrontos e reformas estruturais. Nesse sentido acabou dois palmos abaixo do velho PTB de Jango e Brizola. Estes ao menos sabiam, na conjuntura de 1964, que não se fazem omeletes sem quebrar ovos...

- Como revitalizar a utopia das esquerdas neste contexto de forte ceticismo?

Marildo Menegat — A utopia é pessimismo transformado em força vital. Na atualidade nada nos garante um mundo melhor. Porém este mundo é insuportável. Como sair deste dilema? Tentando criar um outro mundo. Mesmo que falhemos - e isso será um desastre! -, há sempre maior grandeza e beleza naqueles que se expõem inteiros e arriscam, do que nos conformistas.

- O senhor publicou um livro intitulado “Depois do fim do mundo: a crise da crise da Modernidade e a Barbárie”. De que forma o senhor recorre ao conceito de “barbárie” para pensar e refletir sobre as sociedades contemporâneas ocidentais?

Marildo Menegat — Eu elaboro um conceito, procuro lhe dar capacidade de guardar no seu interior uma chave compreensiva sobre o nosso tempo. Escrevi sobre este conceito em Marx, mostrando como, apesar dele não ver esta como a principal possibilidade do desenvolvimento histórico do seu tempo, há na sua obra uma determinada teoria da barbárie. O meu livro é uma continuidade deste trabalho. Nele eu recupero o pensamento de Theodor Adorno e da Escola de Frankfurt. Mostro que a barbárie é o determinismo da sociedade burguesa. Faço isso como uma crítica da pós-modernidade.

- O acirramento de polaridades como “países desenvolvidos x países pobres”, “concentração de renda x pauperização”, “globalização x desemprego”... ilustraria um sintoma de barbárie? A Modernidade, a racionalidade científica e suas promessas de desenvolvimento/progresso foram falácias - em vez de emancipar o homem, o aprisionaram ainda mais?

Marildo Menegat — O capitalismo não tem mais nada a oferecer a humanidade. É um tipo de sociedade cujo prazo de validade já se esgotou. A dinâmica pobres x ricos está dentro de todas as sociedades atuais. A pobreza dos EUA é tão constrangedora e desumana quanto a brasileira ou argentina. Quanto ao papel da ciência, esta é uma questão muito complexa. Veja, quando Copérnico e Galileu implodiram com o geocentrismo, este conhecimento representou uma libertação dos horizontes obscuros impostos pela teologia católica. Descartes, Bacon e outros pensavam que a ciência não apenas nos emanciparia da estupidez da superstição como também contribuiria para tornar a vida melhor e mais fácil. Hoje a ciência disputa com as religiões quem é mais obscurantista. Não há racionalidade alguma, tampouco graça, em se clonar um ser humano num mundo em que ainda não resolvemos o problema da fome. A ciência hoje é um ramo da produção, logo, está submetida ao fetichismo do capital, emprestando-lhe uma sombra muito própria. No futuro, se a humanidade ainda existir, terá que desconstruir esta armadilha que se chamou técnica, para reconstruí-la para os fins da felicidade de todos.

- Este caldeirão de tensões sociais explicaria, por exemplo, a agudização dos índices de violência e criminalidade nos países periféricos?

Marildo Menegat — A violência é global. Os EUA encarceram 2 milhões de indivíduos. Este estado de coisas explica porque a normalidade burguesa se assemelha cada vez mais a uma imensa anomalia. A criminalização das classes subalternas sempre existiu no capitalismo. A novidade são os aparatos de exceção da intolerância total - ou tolerância zero, se vocês preferirem! - que em outros tempos seria corretamente classificada de proto-fascismo. Em torno da repressão à criminalidade, a sociedade se prepara para os modelos futuros de totalitarismo político, que já estarão legitimados, à espera de um aventureiro qualquer para realizá-los. Entre o final dos anos 1980 e 2003, morreram no Brasil de causas externas -ou seja, violentas - cerca de 600 mil pessoas. A maioria são jovens negros de 15 a 25 anos. Portanto, matar jovens negros sob o pretexto de estarem roubando ou participando do comércio ilícito de drogas, dando-lhes feições perigosas, é perpetrar um genocídio em plena democracia. Isso é algo novo na história, mas convenhamos, nada original.

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Chip não liga

Está no informativo nº 610 do STF:

"Art. 50, VII, da LEP: tipicidade e falta grave

Caracteriza falta grave, nos termos do art. 50, VII, da Lei das Execuções Penais - LEP, o condenado introduzir, em presídio, elementos que possam viabilizar a comunicação direta com outros presos ou com o ambiente exterior (LEP: “Art. 50 ... VII - Comete falta grave o condenado à pena privativa de liberdade que: ... tiver em sua posse, utilizar ou fornecer aparelho telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com outros presos ou com o ambiente externo”). Com base nesse entendimento, a 1ª Turma denegou habeas corpus impetrado em favor de paciente que, no cumprimento de pena em regime aberto, retornara à penitenciária, para o pernoite, portando 3 “chips” para telefones celulares. Asseverou-se que o mencionado preceito, inserido em 2007, aditara o rol das faltas graves com o fim de evitar a entrada de objetos que possibilitassem tais comunicações, por se ter percebido que custodiados em presídios estariam a conduzir a criminalidade no ambiente externo. Registrou-se que, conforme ressaltado pela Procuradoria-Geral da República, buscar-se-ia a segurança maior. Reputou-se, por fim, que a norma alcançaria o fato imputado ao paciente como configurador de falta grave.
HC 99896/RS, rel. Min. Marco Aurélio, 23.11.2010. (HC-99896)

Comentário:

Não. Um chip, por si só, não é aparelho telefônico, nem tem como realizar comunicação com o meio externo.

Ocorreu, sim, hipótese de analogia in malam partem. Decisão que fere claramente um princípio básico do Direito Penal.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Política de drogas brasileira

Segue artigo publicado no boletim do IBCCRIM nº 217 (dezembro):

"Breves considerações sobre a política de drogas brasileira atual e as possibilidades de descriminalização
Luciana Boiteux

BOITEUX, Luciana. Breves considerações sobre a política de drogas brasileira atual e as possibilidades de descriminalização In Boletim IBCCRIM. São Paulo : IBCCRIM, ano 18, n. 217, p. 16, dez., 2010.


A Nova Lei de Drogas (n. 11.343/06) avançou ao despenalizar o usuário, ou seja, ao impedir que àquele se apliquem penas de prisão, na forma do seu art. 28, que somente prevê medidas alternativas. Tal legislação inovou também na positivação de princípios importantes, tais como o “fortalecimento da autonomia e da responsabilidade individual em relação ao uso indevido de drogas” (art. 19, III) e a reafirmação dos princípios da liberdade e da diversidade (art. 4º), além do reconhecimento oficial das políticas de redução de danos.

Por outro lado, como pontos negativos, destacam-se o aumento da pena mínima do crime de tráfico para cinco anos e a ausência de critérios precisos capazes de promover a necessária distinção entre usuário e traficante, além das diversas categorias de tráfico (pequeno ou varejista, médio e grande). Tal deficiência legislativa não só causa insegurança jurídica, mas também reforça o preconceito social com que atuam as instâncias repressivas de controle social, levando à criminalização da pobreza. Isto porque, conforme verificado, dependendo da classe social, ou da renda do suspeito, ele será identificado como traficante (se não tiver renda para sustentar o seu vício) ou usuário (se tiver renda e não precisar traficar para ter acesso à droga).

Outra crítica corrente à lei brasileira é a opção irrestrita pela aplicação da pena privativa de liberdade para qualquer tipo de tráfico. Nesse sentido, mesmo que haja alguma diminuição da pena para tal delito, na forma do § 4º do art. 33, que permite a redução de um sexto a dois terços, esta mesma legislação veda a substituição da prisão por penas alternativas, conforme o art. 44.

Mas qual é o impacto dessa legislação na sociedade e no sistema penitenciário? Em pesquisa realizada recentemente, com o financiamento do Ministério da Justiça,(1) sobre a aplicação da lei brasileira pelo Judiciário, foi identificado que a maioria dos condenados por tráfico ilícito de drogas (art. 33) na Justiça Criminal do Rio de Janeiro e de Brasília é de réus primários, presos sozinhos, com quantidade de drogas relativamente pequena, sem o uso de arma, que comercializavam maconha e cocaína (drogas prevalentes) em locais já conhecidos pela polícia, pois não há investigação prévia, mas flagrantes em comunidades carentes. Dessa forma, constatou-se que o tráfico de drogas não é contido pela polícia, ao mesmo tempo em que as penitenciárias estão cheias de pequenos traficantes. Além disso, atualmente, no Brasil, o tráfico de drogas é a segunda maior incidência de condenação entre os presos brasileiros (cerca de 20%), só ficando atrás dos condenados por roubo (Fonte: InfoPen).

Recentemente, tal dispositivo acima referido, que impedia a aplicação de penas alternativas para traficantes, acabou tendo sua constitucionalidade questionada perante o Supremo Tribunal Federal, no habeas corpus n. 97.256, ao julgar o caso de um traficante que, apesar de sua pena haver sido reduzida, por ser considerada de menor importância sua participação em tal delito, teve vetada, pelo juiz de primeira instância, a substituição da pena de prisão por alternativas. A decisão foi no sentido de considerar violado o princípio da individualização da pena previsto na Constituição, sendo declarada a inconstitucionalidade do referido art. 44 e recomendado aos juízes que analisassem a situação dos acusados de forma individual, para fins de substituição da pena. Destaca-se que os resultados da pesquisa acima mencionada foram citados por um dos ministros como base para sua decisão.

Diante de tantas críticas, a Lei de Drogas passa por um momento de avaliação, ao mesmo tempo em que há avanços na política internacional, como é o caso da Proposição 19, na Califórnia-EUA, que pretendia legalizar o consumo da cannabis, e a constatação do fim do Consenso de Viena com relação à política internacional de drogas, verificada na reunião do Conselho de Drogas Narcóticas da ONU em 2009.(2)

Diante do que foi investigado, não há dúvidas de que a questão das drogas deve ser tratada essencialmente como um tema de saúde pública, por meio da prevenção e do tratamento voluntário, bem como se deve reconhecer a liberdade individual daqueles que fazem uso não problemático de drogas ilícitas (por exemplo, maiores de idade, uso pessoal em locais privados), sem prejudicar os outros, mediante limitação de quantidade autorizada para posse visando ao uso pessoal. A Justiça Criminal não tem condições nem é legitimada para impor uma determinada moral ou um comportamento que não coloquem em risco outras pessoas. Além disso, se em cem anos de proibição não se conseguiu reduzir ou conter nem o mercado consumidor, nem a produção de drogas ilícitas, é essencial que se pense em alternativas.

Nesse sentido, considera-se que Portugal tem muito a ensinar ao Brasil e ao mundo, pois a descriminalização da posse de todas as drogas ilícitas para uso pessoal lá realizada, com limites objetivos de quantidade que o usuário possa portar, além de haver produzido resultados importantes com relação à prevenção, não levou ao aumento do consumo (o que era o seu maior temor), conforme pesquisas realizadas.(3) Assim, Portugal é, hoje, um excelente exemplo de melhor utilização de recursos públicos: ao invés de se gastar com o sistema criminal, se investe em saúde e assistência aos usuários que desejarem.

É mais do que urgente a mudança desse paradigma proibicionista da guerra às drogas, que se mostrou caro e ineficaz, como o trágico exemplo do México. Há alternativas descriminalizadoras que podem ser aplicadas e que trarão, como consequências, menos gastos públicos com repressão e melhor qualidade de vida aos usuários, além de maior acesso ao sistema de saúde.

Considera-se que a descriminalização da cannabis, droga ilícita mais consumida em todo o mundo, já seria importante como primeiro passo. Não há prova de que a maconha seja “a porta de entrada para outras drogas”, até porque há milhões de usuários de maconha no mundo que nunca passaram a usar substâncias mais pesadas, o que se percebe das próprias estatísticas oficiais da ONU, e a experiência da autorização do uso de maconha medicinal na Califórnia(4) pode ser considerada positiva.

Além disso, é necessário repensar também a redação do tipo de tráfico de drogas (art. 33), que não faz a necessária distinção entre as condutas, de forma a reduzir o encarceramento de pequenos traficantes, mais vulneráveis à seletividade do sistema penal.

Em suma, é preciso mudar a mentalidade e trabalhar com evidências científicas, deixando de lado o discurso do medo e da guerra, que proliferou nos últimos anos e que tenta legitimar a política proibicionista, a qual não mais se sustenta racionalmente."

Clique aqui para acessar o site do IBCCRIM.